O objetivo deste texto é retirar o estoicismo do mármore, dos livros, artigos, vídeos e best-sellers que vemos por aí.
É muito fácil ser estoico entre as páginas de um livro, sentado em casa, quentinho ou até nas redes sociais, com posts exuberantes e motivacionais, muitas vezes gerados pela inteligência artificial.
Se o estoicismo é considerado uma filosofia prática, porque não trazer aqui algumas aplicações reais do dia a dia.
O estoico não acorda despreocupado, mas aprende a controlar sua preocupação
Quando o estoico levanta pela manhã, ele tem os mesmos problemas que você. Ele olha para as horas e sente o peso das pendências acumuladas, a ansiedade pela reunião importante das 14h e aquela leve preguiça de sair da cama. A diferença não está no que ele sente, mas no que ele faz com isso.
Em vez de pegar o celular para anestesiar a mente nas redes sociais ou até mesmo ficar deprimido antes de colocar os pés no chão, o estoico acorda e faz um pacto com a realidade: “O mundo lá fora vai tentar me desestabilizar, me desorganizar mentalmente, mas só eu tenho o poder de entregar o controle da minha mente a ele”.
Depois desta afirmação, ele levanta e vai fazer um café.
Premeditatio Malorum
Já dizia Jim Hopper, na série Stranger Things: “Manhãs são para café e contemplação. Café e contemplação!”.
Esta certamente não é uma citação estoica, mas introduz bem esse momento.
Enquanto passa o café o estoico pratica o chamado Premeditatio Malorum (pré-meditação dos males), uma prática que visa antecipar cenários negativos, não no sentido de remoer ou se preocupar com os problemas do dia, mas sim de antecipar soluções, jogadas ou até ter novas ideias. Essa prática reduz o impacto emocional de possíveis problemas que ele terá que enfrentar neste dia. Olhando por uma ótica fisiológica este é o melhor momento para o seu cérebro performar e trabalhar com problemas mais complexos.

No trabalho
Diferente do que as pessoas pregam no Instagram, onde o estoico senta em sua mesa de trabalhar, com seu café quentinho, para trabalhar sem distrações, como se fosse um robô ultraprodutivo. Na vida real, a mesa está cheia, o chat da empresa não para de piscar, e-mails para enviar, reuniões, alinhamentos, entrega…
Qualquer um sentiria vontade de fechar a tela, pegar o celular e procrastinar por meia hora para fugir do estresse. O estoico sente essa mesma vontade. Mas ele não se acovarda.
Não porque ele é melhor do que os outros, mas sim porque ele mantem os seus valores acima de suas vontades.
Existem 4 virtudes cardeais que todo estoico toma por base em sua vida: Sabedoria, Coragem, Justiça e Temperança. Em um outro momento falo com mais detalhes sobre cada um deles. Agora, vamos voltar para a rotina.
Ao olhar para toda essa demanda, ele respira fundo e lembra da frase que está no Manual de Epicteto, que ensina sobre focar apenas no está ao nosso alcance.
Das coisas que existem, algumas estão sob nosso controle e outras não.
Ele não olha para o volume de trabalho e tenta resolver tudo de uma vez (isso só lhe geraria ansiedade). Abraçar o mundo não é uma opção para o estoico.
Então ele pega a lista de tarefas, separa o que é barulho do que é sinal, e escolhe uma única coisa para resolver primeiro. Uma.
Naquele momento ele não pensa no projeto inteiro, no que precisa entregar na sexta-feira; ele pensa na linha de código, no parágrafo ou na planilha que precisa preencher nos próximos quarenta minutos.
O estoico se organiza, prioriza e, sem drama ou post motivacional, simplesmente trabalha. Ele sabe que a única forma de esvaziar uma represa é deixando a água correr, gota a gota.
Bravura não tem a ver com heroismo
Depois do almoço a energia diminui, o cansaço bate e é justamente nessa hora que os imprevistos mais barulhentos decidem aparecer. Uma entrega urgente, um reunião não prevista, um problema em produção. Toda a matéria-prima necessária para entrar em pânico e agir de forma emocional. Mas não o estoico.
Suas decisões são racionais. Ele entende que o problema em produção não é algo que pode ser solucionado diretamente por ele, então delega e direciona a quem pode ajudar.
No invite (convite) desta reunião não prevista, ele percebe na descrição que ela foi agendada pela falta de informação, uma visibilidade que outra área pode fornecer. Então ele simplesmente cria um chat, conecta as pessoas e solicita a informação. Pronto. Uma reunião a menos para se preocupar e mais tempo para focar no que verdadeiramente importa para ele: a entrega urgente que está sob sua responsabilidade.
Vamos parar um pouco para pensar nas ações do estoico.
Ao voltar do almoço, de um dia aparentemente sob controle, tudo rui. Um ambiente que era previsível se tornou um caos. Acionamento de todos os lados, pessoas pedindo ajuda. Todas consideradas demandas emergenciais.
Uma pessoa qualquer tentaria abraçar tudo. O problema em produção, entrando na reunião não prevista já com a cabeça quente pensando em sua entrega, que precisa ser liberada ainda hoje. É provável que o resultado seria uma explosão de emoções no final do dia. Reclamações sobre a comunicação da empresa, excesso de trabalho e reuniões desnecessárias…
Para um estoico, que olhou para esse cenário de forma lógica:
- Ele entendeu a prioridade das atividades;
- Compreendeu que o ambiente de produção não poderia ser solucionado por ele. Logo a presença dele nesta análise não seria produtiva. Por isso fez o que estava dentro do seu alcance para solucionar o problema (chamando e delegando pessoas que realmente poderiam resolver);
- Analisou cuidadosamente a necessidade da reunião emergencial e viu que a solução não estava em suas mãos. Mas nas mãos da área parceira. Fez o que estava ao seu alcance, não focando na forma como as pessoas queriam resolver o problema, mas buscando diretamente a solução;
- Direcionou os assuntos (dentro da sua capacidade de atuação), voltou a trabalhar em sua entrega, naquilo que de fato ele tem autonomia para fazer.
Diante deste cenário podemos concluir que: ser estoico não é o COMO os problemas chegam, mas O QUE você pode fazer para resolve-los. A ansiedade é inata; ou seja, ela vai surgir em momentos como este. Mas a chave estoica está no quanto você permite que estes problemas te afetem, e alimentem a sua ansiedade.
Depois de uma tarde desafiadora, ele volta para casa.
O estoicismo é uma prática que exige persistência
Seis e meia da tarde, o cansaço já abraça o estoico que, seguindo o Instagram teria a oportunidade de se sentar em sua poltrona, tomar um cálice e ler um bom livro ao som de Bach. Mas como sabemos, a rotina contemporânea é bem diferente.
Longe deste cenário perfeito, o estoico lava roupa, passa, cozinha, limpa a casa e toma um banho. E se der tempo, senta para ler um bom livro.
– Mas Renato, diante desse turbilhão de atividades que a vida de hoje nos traz. Em qual momento o estoico estuda? Tem o seu momento de busca e alimento intelectual.
Esta é uma ótima pergunta! Vou transformar minha resposta em uma lista de dicas, dentro deste mesmo contexto:
- No caminho para o trabalho, ele ouviu o audiobook A Arte de Viver de Epicteto. Na volta, para relaxar colocou para ouvir Diário Estoico, de Ryan Holiday;
- No almoço, ele conseguiu ler três páginas de Meditações, de Marco Aurélio;
- Enquanto passava roupa, cozinhava e limpava a casa, ele aproveitou para ouvir podcasts sobre esses e outros assuntos (que ajudam no aumento do repertório);
- Durante o banho… Bom, ele tomou banho;
- Antes de dormir, escreveu em seu diário – ressaltando a oportunidade que teve de realizar algumas ações virtuosas;
- Reduziu a luz, pegou um bom livro, uma bebida quente e o resto vocês já sabem…
Ser estoico em 2026 é sim um desafio, mas perfeitamente possível de ser realizado. Não pelos moldes do estoicismo apresentado nas redes sociais, mas sim pelo firme fundamento dessa filosofia antiga mas factível de ser exercida nos dias de hoje.

