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  • O declínio cognitivo da sociedade brasileira com o uso incorreto da inteligência artificial

    O declínio cognitivo da sociedade brasileira com o uso incorreto da inteligência artificial

    Existe uma história antiga sobre um homem que ganhou uma carruagem com cavalos fortes e rápidos. Ele ficou tão empolgado que decidiu que nunca mais precisaria andar a pé. O tempo passou, as pernas dele encolheram, ficaram mirradas e atrofiaram de tanto ficarem paradas. Certo dia, a carruagem deste homem, já velho, quebrou, e ele percebeu que quase não conseguia dar um único passo sozinho para voltar para casa.

    Olhando de fora, a gente acha isso uma burrice sem tamanho, né? Mas a verdade é que a sociedade brasileira está fazendo exatamente a mesma coisa hoje com a Inteligência Artificial.

    A IA veio com uma promessa legítima: ser uma ferramenta. Ferramentas servem para aumentar a nossa capacidade, não para nos substituir. Se você usa o ChatGPT ou Claude para limpar uma planilha pesada, organizar dados ou automatizar uma tarefa repetitiva, ótimo! Você ganhou tempo. O problema real e o nosso grande erro é terceirizar a própria mente.

    A terceirização do pensamento

    Tenho observado o esforço das pessoas em se adaptarem ao uso da IA. Muitas têm criado ótimas soluções e resolvido muitos problemas de mercado. Já outras pessoas estão indo além, terceirizando sua criatividade pedindo para a IA escrever uma pequena frase de parabéns, resumo de textos que deveria ser lidos na integra, gerando ideias para posts e até mesmo pedindo para a IA planejar sua viagem.

    Não me leve a mal, eu mesmo já pedi para a IA fazer algumas destas tarefas, mas não de forma crônica (sempre).

    A morte do seu eu?

    O ócio criativo hoje já é uma raridade. Imagine agora com a terceirização do nosso raciocínio.

    Eu concordo, o ato de quebrar a cabeça para ter uma ideia original é doloroso, mas necessário. Pense comigo. A IA gera insights baseados na média de tudo o que já existe na internet. Quando terceirizamos o processo criativo inicial, você mata a chance de criar algo original, disruptivo e padroniza o seu pensamento ao “feijão com arroz” do algoritmo, deixando de lado a sua identidade, seu diferencial.

    Escrever uma mensagem de aniversário ou de apoio exige que você pense na sua história com aquela pessoa, sinta o momento e busque palavras que ecoem sua voz real. Deixar que a IA crie essa conexão torna nossas relações automatizadas e pode prejudicar a capacidade de expressar nossos sentimentos no papel. Fazendo com que mais um percentual do seu “eu” seja terceirizado.

    Escrever um e-mail de agradecimento, elaborar uma redação de escola ou faculdade, pensar em uma legenda para uma foto estão se tornando tarefas “pesadas demais”. A exceção virou a regra: Corre lá e pede para a IA fazer.

    Precisamos lembrar que somos seres humanos, limitados a uma natureza biológica e racional: o músculo que você não exercita, atrofia. Se você passar três meses sem levantar do sofá, suas pernas não vão aguentar o peso do seu corpo. Se uma geração inteira parar de fazer o esforço básico de colocar as ideias no papel, de procurar a palavra certa na memória e de raciocinar por conta própria, o cérebro vai desaprender a fazer isso.

    O que nos espera daqui a uma geração?

    O que vai ser do Brasil daqui a vinte ou trinta anos, quando os filhos dessa geração atual assumirem os hospitais, as escolas e as empresas?

    Essa é uma pergunta bastante curiosa, que só o tempo dirá. Mas quero deixar aqui minhas provocações:

    • Seremos uma sociedade completamente dependente de uma ferramenta?
    • Pessoas com acesso a toda a informação do mundo, mas incapazes de interpretar um texto simples sem pedir um resumo mastigado para um robô?
    • Teremos profissionais com ferramentas incríveis nas mãos, mas com mentes completamente empobrecidas?

    A grande ironia é que algumas pessoas morrem de medo dos robôs dominarem o mundo à força. Mas pelo que vejo, as próprias pessoas estão permitindo essa façanha pela própria preguiça de pensar.

    Não é a IA que está nos engolindo, somos nós que estamos permitindo que isso aconteça.

    Existe um caminho de volta?

    Sim, mas não é uma decisão que o mercado ou a ferramenta pode tomar. Precisa partir de você.

    Não vejo necessidade de tomar medidas radicais, como deletar os aplicativos ou fingir que a tecnologia não existe. O segredo é lembrar da diferença entre ferramenta e essência.

    Deixar a IA fazer o trabalho chato e repetitivo, mas não permitir que você, com sua preguiça e pressa, terceirize o trabalho racional usando IA. Proteja a sua mente.

    Escreva textos, leia livros, desenhe, tente expressar seus sentimentos com uso de caracteres. Não há nada de errado em expressas sua humanidade.

    Palavras finais

    Escrever este texto não foi fácil. Levei dias para escolher as palavras certas e criar bons exemplos. E sim, usei IA. Não para escrever o texto, mas sim para aumentar meu vocabulário, aperfeiçoar minhas provocações e potencializar uma ideia que partiu de mim, e não dela.

    Referência AI and cognitive offloading: supporting teachers to shape AI’s impact on learning

    Livro Guia do Estoico Contemporaneo
    Livro Guia do Estoico Contemporaneo