“Conhece-te a ti mesmo.”
A antiga inscrição do templo de Apolo, em Delfos, tornou-se uma das máximas mais importantes da tradição filosófica. Para Sócrates, uma vida que não é examinada corre o risco de ser conduzida por opiniões, desejos e hábitos que nunca foram verdadeiramente questionados.
Na Filosofia da Performance Humana, conhecer a si mesmo é o primeiro movimento de uma investigação sobre o ser humano. Não se trata simplesmente de descobrir uma personalidade ou listar características individuais, mas de compreender quem somos de fato, diante de nós mesmos e da sociedade.
O ser humano não é apenas mente, nem apenas corpo, nem apenas um indivíduo isolado. Somos seres pensantes, propositivos, seletivos; somos organismos biológicos com determinadas características e limitações; e somos também seres sociais, inseridos em comunidades, relações e estruturas maiores que nós.
O risco de não conhecermos a nós mesmos
Não conhecer a si mesmo tem um preço. Quando não sabemos quem somos, o que valorizamos, o que desejamos, quais são nossos limites e qual é nosso papel no mundo, tornamo-nos mais suscetíveis a sermos conduzidos pelas ideias, desejos e expectativas dos outros. Podemos adotar doutrinas que nunca questionamos, perseguir objetivos que não escolhemos e passar anos tentando ser aquilo que não somos.
O maior risco é perceber isso tarde demais. O tempo é a nossa moeda de maior valor: uma vez entregue, não pode ser recuperado. Por isso, conhecer a si mesmo é tomar as rédeas da sua própria vida, é compreender onde devemos colocar nossa atenção, nossos esforços e nosso tempo, evitando entregá-los àquilo que não valorizamos ou a pessoas e objetivos que não merecem ocupar nossa existência.
Três pilares do autoconhecimento
Dentro da Filosofia da Performance Humana o autoconhecimento pode ser investigado a partir de três grandes dimensões:
A Mente – Compreender quem somos por dentro
Conhecer a mente significa investigar os elementos que participam da construção de nossa identidade e orientam nossa maneira de perceber e agir no mundo. Resumidamente é começar respondendo as seguintes perguntas:
Quais são nossos valores?
Quais crenças orientam nossas decisões?
O que realmente desejamos?
Que hábitos adquirimos ao longo da vida?
Somos guiados pelas nossas emoções?
Quais são nossas virtudes?
Como nossas relações e circunstâncias influenciaram a pessoa que nos tornamos?
Essa investigação exige distinguir aquilo que realmente pensamos daquilo que simplesmente aprendemos a pensar. O que nos foi imposto do que pensamos por si mesmos.
Sócrates compreendia a filosofia como uma atividade de exame da própria vida. O autoconhecimento, portanto, não consiste em encontrar respostas definitivas sobre nós mesmos, mas em desenvolver a disposição de questionar aquilo que pensamos saber sobre nós.
Conhecer a mente é começar a perceber os mecanismos que orientam nossas escolhas e compreender que, muitas vezes, aquilo que chamamos de “eu” é resultado de uma combinação de história, educação, experiências, hábitos, desejos e circunstâncias.
Corpo – Compreender quem somos como seres vivos
Você é um organismo. Correto?
Conhecer a si mesmo, portanto, exige conhecer o próprio corpo e a própria biologia. Cada pessoa possui características fisiológicas, necessidades e respostas individuais que não são necessariamente iguais às de outra pessoa. Neste pilar, refletimos sobre:
Que alimentos funcionam melhor para nós?
Como nosso organismo responde ao sono, exercício e o estresse?Quais são nossas características e limitações biológicas?
Quais hábitos colaboram positivamente com a nossa biologia?
Quais medicamentos são mais ou menos eficiêntes?
Essa dimensão não busca transformar o corpo em uma máquina que deve ser constantemente otimizada. O objetivo é compreender que somos seres biológicos e que nossa existência mental, emocional e prática acontece por meio de um organismo simbiótico.
Conhecer o corpo é, portanto, reconhecer nossa própria natureza biológica, seus limites e suas possibilidades.
Aqui encontramos uma aproximação importante com Aristóteles, para compreender algo é necessário investigar sua natureza. O ser humano não pode ser compreendido ignorando aquilo que ele é enquanto organismo vivo.
Sociedade – Compreender nosso lugar no mundo
O terceiro pilar trata-se de compreender que não existimos sozinhos.
Somos seres relacionais e políticos. Vivemos em famílias, comunidades, organizações e sociedades. Recebemos da sociedade uma parte significativa daquilo que somos e, ao mesmo tempo, participamos de sua construção.
Por isso, conhecer a si mesmo também significa responder as perguntas:
Qual é o meu papel na sociedade?
Como posso colaborar usando os meus dons?
O que tenho a oferecer?
Qual é o meu propósito e como ele afeta as pessoas ao meu redor?
Aristóteles afirmou que “o homem é, por natureza, um animal político”, indicando que a realização humana não acontece completamente fora da comunidade. A vida humana se desenvolve nas relações com os outros e dentro de uma sociedade.
Essa perspectiva acrescenta uma dimensão fundamental ao autoconhecimento: não basta compreender quem somos individualmente. É necessário compreender também quem somos em relação aos outros.
Podemos dizer que somos, de certa maneira, uma engrenagem dentro de estruturas maiores. Temos responsabilidades, recebemos contribuições e também contribuímos. Conhecer nosso lugar significa compreender como nossa existência se conecta à existência dos demais.
Conhecer para viver de verdade
Conhecer a si mesmo, portanto, não é olhar apenas para dentro. É compreender a pessoa que existe dentro de um corpo, inserida em relações e pertencente a uma sociedade.
Sócrates nos oferece o ponto de partida: examinar a própria vida.
Aristóteles nos ajuda a ampliar o horizonte: compreender nossa natureza, nossas disposições, nossas relações e nossa vida em comunidade.
A Filosofia da Performance Humana reúne essas perspectivas para propor uma pergunta fundamental:
Quem sou eu, considerando aquilo que penso, aquilo que sou biologicamente e o lugar que ocupo no mundo?
Somente a partir dessa investigação podemos começar a compreender nossas possibilidades, nossos limites, nossas responsabilidades e o tipo de existência que desejamos construir.
Conhecer a si mesmo é, portanto, mais do que autoconhecimento: é o início de uma investigação sobre o próprio ser humano. Uma jornada de compreensão que se estende por toda a vida.
