Autor: Renato Braga

  • Aplicações práticas do estoicismo na rotina diária

    Aplicações práticas do estoicismo na rotina diária

    O objetivo deste texto é retirar o estoicismo do mármore, dos livros, artigos, vídeos e best-sellers que vemos por aí.

    É muito fácil ser estoico entre as páginas de um livro, sentado em casa, quentinho ou até nas redes sociais, com posts exuberantes e motivacionais, muitas vezes gerados pela inteligência artificial.

    Se o estoicismo é considerado uma filosofia prática, porque não trazer aqui algumas aplicações reais do dia a dia.

    O estoico não acorda despreocupado, mas aprende a controlar sua preocupação

    Quando o estoico levanta pela manhã, ele tem os mesmos problemas que você. Ele olha para as horas e sente o peso das pendências acumuladas, a ansiedade pela reunião importante das 14h e aquela leve preguiça de sair da cama. A diferença não está no que ele sente, mas no que ele faz com isso.

    Em vez de pegar o celular para anestesiar a mente nas redes sociais ou até mesmo ficar deprimido antes de colocar os pés no chão, o estoico acorda e faz um pacto com a realidade: “O mundo lá fora vai tentar me desestabilizar, me desorganizar mentalmente, mas só eu tenho o poder de entregar o controle da minha mente a ele”.

    Depois desta afirmação, ele levanta e vai fazer um café.

    Premeditatio Malorum

    Já dizia Jim Hopper, na série Stranger Things: “Manhãs são para café e contemplação. Café e contemplação!”.

    Esta certamente não é uma citação estoica, mas introduz bem esse momento.

    Enquanto passa o café o estoico pratica o chamado Premeditatio Malorum (pré-meditação dos males), uma prática que visa antecipar cenários negativos, não no sentido de remoer ou se preocupar com os problemas do dia, mas sim de antecipar soluções, jogadas ou até ter novas ideias. Essa prática reduz o impacto emocional de possíveis problemas que ele terá que enfrentar neste dia. Olhando por uma ótica fisiológica este é o melhor momento para o seu cérebro performar e trabalhar com problemas mais complexos.

    No trabalho

    Diferente do que as pessoas pregam no Instagram, onde o estoico senta em sua mesa de trabalhar, com seu café quentinho, para trabalhar sem distrações, como se fosse um robô ultraprodutivo. Na vida real, a mesa está cheia, o chat da empresa não para de piscar, e-mails para enviar, reuniões, alinhamentos, entrega…

    Qualquer um sentiria vontade de fechar a tela, pegar o celular e procrastinar por meia hora para fugir do estresse. O estoico sente essa mesma vontade. Mas ele não se acovarda.

    Não porque ele é melhor do que os outros, mas sim porque ele mantem os seus valores acima de suas vontades.

    Existem 4 virtudes cardeais que todo estoico toma por base em sua vida: Sabedoria, Coragem, Justiça e Temperança. Em um outro momento falo com mais detalhes sobre cada um deles. Agora, vamos voltar para a rotina.

    Ao olhar para toda essa demanda, ele respira fundo e lembra da frase que está no Manual de Epicteto, que ensina sobre focar apenas no está ao nosso alcance.

    Das coisas que existem, algumas estão sob nosso controle e outras não.

    Ele não olha para o volume de trabalho e tenta resolver tudo de uma vez (isso só lhe geraria ansiedade). Abraçar o mundo não é uma opção para o estoico.

    Então ele pega a lista de tarefas, separa o que é barulho do que é sinal, e escolhe uma única coisa para resolver primeiro. Uma.

    Naquele momento ele não pensa no projeto inteiro, no que precisa entregar na sexta-feira; ele pensa na linha de código, no parágrafo ou na planilha que precisa preencher nos próximos quarenta minutos.

    O estoico se organiza, prioriza e, sem drama ou post motivacional, simplesmente trabalha. Ele sabe que a única forma de esvaziar uma represa é deixando a água correr, gota a gota.

    Bravura não tem a ver com heroismo

    Depois do almoço a energia diminui, o cansaço bate e é justamente nessa hora que os imprevistos mais barulhentos decidem aparecer. Uma entrega urgente, um reunião não prevista, um problema em produção. Toda a matéria-prima necessária para entrar em pânico e agir de forma emocional. Mas não o estoico.

    Suas decisões são racionais. Ele entende que o problema em produção não é algo que pode ser solucionado diretamente por ele, então delega e direciona a quem pode ajudar.

    No invite (convite) desta reunião não prevista, ele percebe na descrição que ela foi agendada pela falta de informação, uma visibilidade que outra área pode fornecer. Então ele simplesmente cria um chat, conecta as pessoas e solicita a informação. Pronto. Uma reunião a menos para se preocupar e mais tempo para focar no que verdadeiramente importa para ele: a entrega urgente que está sob sua responsabilidade.

    Vamos parar um pouco para pensar nas ações do estoico.
    Ao voltar do almoço, de um dia aparentemente sob controle, tudo rui. Um ambiente que era previsível se tornou um caos. Acionamento de todos os lados, pessoas pedindo ajuda. Todas consideradas demandas emergenciais.

    Uma pessoa qualquer tentaria abraçar tudo. O problema em produção, entrando na reunião não prevista já com a cabeça quente pensando em sua entrega, que precisa ser liberada ainda hoje. É provável que o resultado seria uma explosão de emoções no final do dia. Reclamações sobre a comunicação da empresa, excesso de trabalho e reuniões desnecessárias…

    Para um estoico, que olhou para esse cenário de forma lógica:

    • Ele entendeu a prioridade das atividades;
    • Compreendeu que o ambiente de produção não poderia ser solucionado por ele. Logo a presença dele nesta análise não seria produtiva. Por isso fez o que estava dentro do seu alcance para solucionar o problema (chamando e delegando pessoas que realmente poderiam resolver);
    • Analisou cuidadosamente a necessidade da reunião emergencial e viu que a solução não estava em suas mãos. Mas nas mãos da área parceira. Fez o que estava ao seu alcance, não focando na forma como as pessoas queriam resolver o problema, mas buscando diretamente a solução;
    • Direcionou os assuntos (dentro da sua capacidade de atuação), voltou a trabalhar em sua entrega, naquilo que de fato ele tem autonomia para fazer.

    Diante deste cenário podemos concluir que: ser estoico não é o COMO os problemas chegam, mas O QUE você pode fazer para resolve-los. A ansiedade é inata; ou seja, ela vai surgir em momentos como este. Mas a chave estoica está no quanto você permite que estes problemas te afetem, e alimentem a sua ansiedade.

    Depois de uma tarde desafiadora, ele volta para casa.

    O estoicismo é uma prática que exige persistência

    Seis e meia da tarde, o cansaço já abraça o estoico que, seguindo o Instagram teria a oportunidade de se sentar em sua poltrona, tomar um cálice e ler um bom livro ao som de Bach. Mas como sabemos, a rotina contemporânea é bem diferente.

    Longe deste cenário perfeito, o estoico lava roupa, passa, cozinha, limpa a casa e toma um banho. E se der tempo, senta para ler um bom livro.

    – Mas Renato, diante desse turbilhão de atividades que a vida de hoje nos traz. Em qual momento o estoico estuda? Tem o seu momento de busca e alimento intelectual.

    Esta é uma ótima pergunta! Vou transformar minha resposta em uma lista de dicas, dentro deste mesmo contexto:

    • No caminho para o trabalho, ele ouviu o audiobook A Arte de Viver de Epicteto. Na volta, para relaxar colocou para ouvir Diário Estoico, de Ryan Holiday;
    • No almoço, ele conseguiu ler três páginas de Meditações, de Marco Aurélio;
    • Enquanto passava roupa, cozinhava e limpava a casa, ele aproveitou para ouvir podcasts sobre esses e outros assuntos (que ajudam no aumento do repertório);
    • Durante o banho… Bom, ele tomou banho;
    • Antes de dormir, escreveu em seu diário – ressaltando a oportunidade que teve de realizar algumas ações virtuosas;
    • Reduziu a luz, pegou um bom livro, uma bebida quente e o resto vocês já sabem…

    Ser estoico em 2026 é sim um desafio, mas perfeitamente possível de ser realizado. Não pelos moldes do estoicismo apresentado nas redes sociais, mas sim pelo firme fundamento dessa filosofia antiga mas factível de ser exercida nos dias de hoje.

  • Ferramenta estoica para maturidade emocional

    Ferramenta estoica para maturidade emocional

    A estabilidade não é um porto seguro e calmo onde podemos sentar, relaxar e curtir a vida, mas sim uma mente sólida e rápida, porém serena, que caminha diante de um mundo enfurecido.

    Desenvolver maturidade emocional na fase adulta é um ato de sobrevivência. Quem tem filhos sabe exatamente do que estou falando: o caos bate à porta sem avisar, as demandas acumulam e o mundo parece colapsar ao redor. Nessa hora, a nossa obrigação implícita é manter a postura, a resiliência e tomar a melhor decisão possível.

    O problema é que, no calor da crise, nem sempre a decisão perfeita está disponível. E é aí que caímos em uma armadilha invisível.

    O machado da autossabotagem

    Quando erramos ou entregamos uma solução imperfeita sob pressão, o movimento natural é nos voltarmos contra nós mesmos e começar o tribunal interno: “Eu deveria ter previsto isso”, “Eu falhei “, “Eu não reagi a tempo”.

    Esse julgamento interno é a primeira machadada no muro da nossa mente.

    Repare na lógica da situação: o caos externo. A crise financeira, a doença do filho, o imprevisto no trabalho, aconteceu e passou. No mundo real, talgível, ele não está mais acontecendo. O que continua te corroendo não é o mundo, mas a rachadura que você mesmo abriu na sua cabeça através da autoculpa.

    A filosofia estoica nos ensina justamente isso: o ambiente externo é apenas o gatilho, mas somos nós que seguramos o machado em mãos para abrir a trinca que destrói nossa própria serenidade.

    Chave estoica para a resiliência

    Para não se deixar abalar diante do inevitável, a chave estoica é assumir as rédeas desse julgamento. Significa compreender, de forma lúcida e madura, que você fez o melhor que pôde com as ferramentas que tinha naquele minuto de caos. E isso basta.

    Isso não é um convite à complacência ou à falta de autocrítica; você deve, sim, refletir sobre como melhorar no futuro. O erro está em permitir que o chicote do julgamento sabote a decisão que você precisou tomar sob pressão no passado.

    Há dois mil anos, o imperador romano Marco Aurélio lidava com o peso de guiar um império em colapso e anotava em seu diário uma máxima que serve perfeitamente para aliviar o peso das nossas cobranças atuais:

    “Se te afliges por alguma coisa externa, não é ela que te perturba, mas o julgamento que fazes dela. E está em teu poder eliminar esse julgamento agora mesmo.”

    Marco Aurélio, Meditações, Livro 8

    Se transmutarmos essa sabedoria para a nossa realidade, percebemos que o caos externo não tem o poder inerente de nos destruir. O que nos adoece é a narrativa catastrófica e a culpa que criamos depois que a tempestade passa. A estabilidade real começa quando você decide parar de golpear a sua própria mente.

  • Como surgiu o estoicismo?

    Como surgiu o estoicismo?

    Você sabia que a história do estoicismo começa com um desastre financeiro e pessoal?

    Por volta de 312 a.C., um homem de negócios fenício chamado Zenão, natural de Cítio (uma colônia grega na ilha de Chipre), estava no auge de sua carreira como mercador de púrpura, um corante extraído de moluscos que, na antiguidade, valia seu peso em ouro por ser o símbolo máximo de status da aristocracia.

    Durante uma de suas viagens comerciais pelo Mar Mediterrâneo, o navio de Zenão naufragou na costa da Ática, perto de Atenas. Ele não perdeu apenas o navio; perdeu toda a sua carga e, consequentemente, sua fortuna. Tudo isso com apenas 22 anos de idade.

    A livraria

    Falido, estrangeiro e sem conexões políticas em Atenas, Zenão entrou em uma livraria no centro da cidade para passar o tempo e digerir o prejuízo. Ali, começou a folhear os Memoráveis, um livro escrito por Xenofonte que retratava os diálogos de Sócrates.

    A leitura causou um impacto imediato. Zenão ficou fascinado com a figura de Sócrates: um homem que mantinha uma integridade intelectual inabalável e uma paz de espírito absoluta, mesmo diante de crises extremas (incluindo sua própria execução).

    Zenão fechou o livro, olhou para o livreiro e fez a seguinte pergunta: “Onde posso encontrar homens que vivam desse jeito hoje em dia?”

    O livreiro olhou pela janela, apontou para a multidão na praça do mercado e disse: “Siga aquele homem”. O homem em questão era Crates de Tebas, o filósofo mais famoso da Escola Cínica na época.

    O Período de Formação

    Zenão seguiu o conselho e tornou-se discípulo de Crates. No entanto, o estoicismo não nasceu de uma revelação mística ou de uma única influência; ele foi o resultado de uma curadoria altamente intelectual que Zenão fez ao longo de mais de dez anos estudando nas principais correntes filosóficas de Atenas. Até onde encontrei evidências, ele estudou Cinismo com Crates de Tebas, Escola Megárica com Estilpão e Diodoro e na Academia Platônica com Xenócrates e Polemo.

    Durante esse período de formação ele criou uma estrutura de pensamento, que no futuro seria conhecido como Estoicismo, que foi dividido em três partes independentes: lógica, física e ética.

    Durante esse tempo Zenão percebeu que nenhuma escola resolvia o problema humano de forma completa, então absorveu o melhor de cada uma delas:

    Lógica

    A lógica estoica é a busca pela verdade e pela coerência.

    Zenão propõe que os estudos devem identificar a existência de uma verdade factual, operando sob uma estrutura lógica que rejeita a aleatoriedade. Para ele as coisas funcionam através de uma ordem coerente que pode ser compreendida pela razão.

    Física (A Natureza das Coisas)

    A física estoica estuda a physis (natureza), mas com uma interpretação que integra o aspecto espiritual e racional. Ela é definida por dois conceitos centrais:

    • Monismo: A crença de que a natureza depende de um princípio único e unitário que rege todas as coisas.
    • Panteísmo: A ideia de que tudo o que existe possui uma proximidade com o divino. Para Zenão, a natureza é concebida por Deus e tudo o que ocorre nela segue uma lógica divina e racional.

    Ética (O Caminho para a Felicidade)

    A ética estoica foca na conquista da felicidade através da virtude. Diferente de outras escolas, o estoicismo define virtude como a capacidade humana de agir de forma plenamente racional.

    AspectoDescrição no Estoicismo
    VirtudeCapacidade de raciocínio, escolha e limitação do próprio comportamento.
    AtaraxiaEstado de paz alcançado ao aceitar o que não pode ser modificado.
    ControleDiferenciação entre o que depende de nós (escolhas) e o que não depende (morte, envelhecimento).

    Em resumo, o objetivo central dessa filosofia criada por Zenão, em alinhamento com outras correntes helenísticas como o cinismo e o epicurismo, é a busca pela ataraxia, um estado de tranquilidade e ausência de inquietude.

    Já maduro e tendo formulado sua própria visão de mundo, por volta do ano 300 a.C., Zenão decidiu que era hora de colocar sua síntese filosófica no mundo. Foi aí que ele esbarrou em um problema puramente burocrático, cuja solução acabou mudando a história da filosofia e dando nome ao movimento.

    O Nascimento da Stoa Poikile: Uma Filosofia de Calçada

    Para entender o impacto do que Zenão fez, precisamos olhar para as duas grandes grifes intelectuais da época: a Academia de Platão e o Liceu de Aristóteles.

    Ambas funcionavam em propriedades privadas e bucólicas, afastadas do barulho do centro da cidade. Eram quase como os campus universitários fechados de hoje.

    Zenão queria fazer o mesmo, mas havia um detalhe legal: ele era um estrangeiro (meteco). Só para você entender melhor o contexto histórico em que Zenão estava:

    Em Atenas, quem não nascesse cidadão ateniense não tinha o direito de comprar terrenos ou imóveis. Sem dinheiro (pelo naufrágio anterior) e sem o direito de ter um teto próprio para sua escola, Zenão tomou a decisão de ocupou um espaço público.

    Ele se instalou no canto noroeste da Ágora (o mercado central e o coração de Atenas), sob a Stoa Poikile (que significa literalmente “Pórtico Pintado”). E ali passou a ensinar.

    O Cenário do Pórtico

    A Stoa era basicamente uma longa calçada coberta, protegida por colunas, onde os cidadãos se abrigavam do sol e da chuva. Ela tinha esse nome porque suas paredes eram decoradas com afrescos famosos do pintor Polignoto, retratando batalhas mitológicas e históricas da Grécia.

    O fato de Zenão ensinar ali foi bastante estratégico por três motivos:

    1. Acessibilidade: Ao contrário da Academia ou do Liceu, que exigiam convites ou mensalidades veladas, a Stoa não tinha portas. Qualquer pessoa que estivesse passando para comprar peixe, resolver um processo ou passear podia parar e ouvir.
    2. Diversidade de Público: Na calçada de Zenão, misturavam-se políticos influentes, intelectuais, soldados, comerciantes, e até escravos ou pessoas marginalizadas. Dado esse cenário, podemos dizer quer o estoicismo nasceu de forma democratizada.
    3. Nome do Movimento: Inicialmente, as pessoas tentaram chamar os discípulos de “Zenonianos”. Mas o próprio Zenão recusou o rótulo de “culto à personalidade”. Como eles se reuniam no pórtico, as pessoas começaram a apontar e dizer: “Lá estão os filósofos da Stoa (do pórtico)”. O termo pegou e virou Estoicos.

    O Contexto Geopolítico: Por que a Stoa Encheu?

    Zenão não era apenas um bom professor; ele estava no lugar certo, na hora certa. Enquanto ele discursava no pórtico, o mundo grego desmoronava do lado de fora. Alexandre, o Grande, havia morrido em 323 a.C., e seus generais estavam despedaçando o império em guerras sangrentas.

    As antigas Cidades-Estado perderam totalmente a independência. O cidadão ateniense percebeu que sua vida e seu futuro não dependiam mais do seu voto na assembleia local, mas sim das decisões de reis distantes.

    Isso gerou uma crise existencial coletiva. As pessoas se sentiam impotentes, desamparadas e à mercê da sorte. Quando olhavam para o pórtico, viam Zenão ensinando exatamente o que elas precisavam ouvir:

    Como construir uma fortaleza mental interna que nenhum rei ou império pudesse destruir

    A mensagem de Zenão era direta: você não pode controlar a política do império, o naufrágio do seu navio ou a economia do mundo. Mas você tem controle absoluto sobre como decide reagir a tudo isso.

    Ref. https://www.ebsco.com/research-starters/biography/zeno-citium

  • A inversão de valores: O preço da aparência na era digital

    A inversão de valores: O preço da aparência na era digital

    Vivemos em um tempo, talvez não exclusivo deste século, mas certamente nos dias de hoje onde o ser humano parece viver em uma perigosa inversão de valores.

    Um mundo onde o ter se tornou mais importante do que o ser; a aquisição prevalecendo sobre a essência. O tempo e dedicação que as pessoas deveriam dar si mesmas, para buscar o refinamento do caráter, princípios e propósito foi deslocado para o objeto, status nas redes e o alto consumo de supérfolos.

    Ao observarmos a engrenagem das mídias sociais e do mercado, percebemos uma supervalorização do que é periférico à vida. Somos bombardeados por narrativas que colocam o status de bilionários e o brilho do sucesso material como o ápice da existência humana.

    Com a sociedade praticamente impondo o dinheiro como sinônimo principal de sucesso, é normal nos depararmos nas redes sociais com vídeos redpill’s e frases isoladas (de efeito), motivacionais, sobre o que precisa ser feito para alcançar esse suposto sucesso.

    O resultado é um cenário triste e destrutivo: pessoas em busca de likes, visibilidade e aprovação externa, colocam à venda aquilo que possuem de maior valor: seu nome e sua integridade.

    É frequente vermos pessoas, cegas pela ganância de serem notadas, abrindo mão de seus valores fundamentais em troca de dividendos sociais temporários.

    Parece que a rede social ganhou contornos mais glamourosos e “reais” do que a própria vida, fazendo com que boa parte das pessoas se preocupem mais com sua vitrine digital do que o próprio fato de viver.

    Pode uma selfie valer mais do que uma viagem? Likes e inscritos mais do que amizades e experiência? O simples fato de viver perdeu a graça?

    O problema que ecoa com mais força, e que virá de forma dolorosa é o entendimento tardio do significado real da vida.

    Por que tantas pessoas só se dão conta da transitoriedade do tempo e da superficialidade de suas escolhas quando chegam ao final de suas vidas?

    Livro Guia do Estoico Contemporaneo
    Livro Guia do Estoico Contemporaneo
  • O declínio cognitivo da sociedade brasileira com o uso incorreto da inteligência artificial

    O declínio cognitivo da sociedade brasileira com o uso incorreto da inteligência artificial

    Existe uma história antiga sobre um homem que ganhou uma carruagem com cavalos fortes e rápidos. Ele ficou tão empolgado que decidiu que nunca mais precisaria andar a pé. O tempo passou, as pernas dele encolheram, ficaram mirradas e atrofiaram de tanto ficarem paradas. Certo dia, a carruagem deste homem, já velho, quebrou, e ele percebeu que quase não conseguia dar um único passo sozinho para voltar para casa.

    Olhando de fora, a gente acha isso uma burrice sem tamanho, né? Mas a verdade é que a sociedade brasileira está fazendo exatamente a mesma coisa hoje com a Inteligência Artificial.

    A IA veio com uma promessa legítima: ser uma ferramenta. Ferramentas servem para aumentar a nossa capacidade, não para nos substituir. Se você usa o ChatGPT ou Claude para limpar uma planilha pesada, organizar dados ou automatizar uma tarefa repetitiva, ótimo! Você ganhou tempo. O problema real e o nosso grande erro é terceirizar a própria mente.

    A terceirização do pensamento

    Tenho observado o esforço das pessoas em se adaptarem ao uso da IA. Muitas têm criado ótimas soluções e resolvido muitos problemas de mercado. Já outras pessoas estão indo além, terceirizando sua criatividade pedindo para a IA escrever uma pequena frase de parabéns, resumo de textos que deveria ser lidos na integra, gerando ideias para posts e até mesmo pedindo para a IA planejar sua viagem.

    Não me leve a mal, eu mesmo já pedi para a IA fazer algumas destas tarefas, mas não de forma crônica (sempre).

    A morte do seu eu?

    O ócio criativo hoje já é uma raridade. Imagine agora com a terceirização do nosso raciocínio.

    Eu concordo, o ato de quebrar a cabeça para ter uma ideia original é doloroso, mas necessário. Pense comigo. A IA gera insights baseados na média de tudo o que já existe na internet. Quando terceirizamos o processo criativo inicial, você mata a chance de criar algo original, disruptivo e padroniza o seu pensamento ao “feijão com arroz” do algoritmo, deixando de lado a sua identidade, seu diferencial.

    Escrever uma mensagem de aniversário ou de apoio exige que você pense na sua história com aquela pessoa, sinta o momento e busque palavras que ecoem sua voz real. Deixar que a IA crie essa conexão torna nossas relações automatizadas e pode prejudicar a capacidade de expressar nossos sentimentos no papel. Fazendo com que mais um percentual do seu “eu” seja terceirizado.

    Escrever um e-mail de agradecimento, elaborar uma redação de escola ou faculdade, pensar em uma legenda para uma foto estão se tornando tarefas “pesadas demais”. A exceção virou a regra: Corre lá e pede para a IA fazer.

    Precisamos lembrar que somos seres humanos, limitados a uma natureza biológica e racional: o músculo que você não exercita, atrofia. Se você passar três meses sem levantar do sofá, suas pernas não vão aguentar o peso do seu corpo. Se uma geração inteira parar de fazer o esforço básico de colocar as ideias no papel, de procurar a palavra certa na memória e de raciocinar por conta própria, o cérebro vai desaprender a fazer isso.

    O que nos espera daqui a uma geração?

    O que vai ser do Brasil daqui a vinte ou trinta anos, quando os filhos dessa geração atual assumirem os hospitais, as escolas e as empresas?

    Essa é uma pergunta bastante curiosa, que só o tempo dirá. Mas quero deixar aqui minhas provocações:

    • Seremos uma sociedade completamente dependente de uma ferramenta?
    • Pessoas com acesso a toda a informação do mundo, mas incapazes de interpretar um texto simples sem pedir um resumo mastigado para um robô?
    • Teremos profissionais com ferramentas incríveis nas mãos, mas com mentes completamente empobrecidas?

    A grande ironia é que algumas pessoas morrem de medo dos robôs dominarem o mundo à força. Mas pelo que vejo, as próprias pessoas estão permitindo essa façanha pela própria preguiça de pensar.

    Não é a IA que está nos engolindo, somos nós que estamos permitindo que isso aconteça.

    Existe um caminho de volta?

    Sim, mas não é uma decisão que o mercado ou a ferramenta pode tomar. Precisa partir de você.

    Não vejo necessidade de tomar medidas radicais, como deletar os aplicativos ou fingir que a tecnologia não existe. O segredo é lembrar da diferença entre ferramenta e essência.

    Deixar a IA fazer o trabalho chato e repetitivo, mas não permitir que você, com sua preguiça e pressa, terceirize o trabalho racional usando IA. Proteja a sua mente.

    Escreva textos, leia livros, desenhe, tente expressar seus sentimentos com uso de caracteres. Não há nada de errado em expressas sua humanidade.

    Palavras finais

    Escrever este texto não foi fácil. Levei dias para escolher as palavras certas e criar bons exemplos. E sim, usei IA. Não para escrever o texto, mas sim para aumentar meu vocabulário, aperfeiçoar minhas provocações e potencializar uma ideia que partiu de mim, e não dela.

    Referência AI and cognitive offloading: supporting teachers to shape AI’s impact on learning

    Livro Guia do Estoico Contemporaneo
    Livro Guia do Estoico Contemporaneo
  • Usar IA deixou de ser um diferencial para o mercado

    Usar IA deixou de ser um diferencial para o mercado

    Ter conhecimento em inteligência artificial (IA) deixou de ser um diferencial para o mercado.

    O que diferencia um profissional hoje, no mercado, é o valor que ele gera com o uso desta ferramenta, e não o contrário.

    Falar sobre Inteligência Artificial e acompanhar tendências nas redes sociais não faz da pessoa um especialista, mas sim uma pessoa interessada em buscar conhecimento sobre o assunto.

    O profissional de hoje não é aquele que faz tudo com IA, mas aquele que sabe adaptar o uso da ferramenta a necessidade do mercado, viabilizando os resultados que de fato geram valor.

    O que gera valor não é usar Inteligência Artificial, mas sim solucionar um problema real

    Tenho observado muita gente falando sobre IA na internet. Criando aplicativos, automações, gerando conteúdo em diversos formatos. Tudo isso é muito legal, demonstra interesse em resolver problemas. Mas ao mesmo tempo gera um ponto de preocupação: A falta de propósito no uso da ferramenta.

    Uma pessoa que usa IA para criar artigos está, de fato, querendo resolver um problema?

    Não vejo nenhum mal em usar IA para criar aplicativos, imagem ou texto; inclusive incentivo. Contudo, acho importante entender primeiro qual o propósito do uso. Resolver uma necessidade real? Ou usar para criar um aplicativo que “reinventa a roda”.

    Precisamos prestar atenção. A vinda da IA não muda a demanda do mercado, mas sim a forma como o jogo é jogado.

    O que gera valor não é usar Inteligência Artificial, mas sim solucionar um problema real. E é essa a mentalidade que precisa ser ajustada.

    O resultado deste uso pode ser tanto inovador quanto uma nova forma de fazer a mesma.

    Ideias boas vs ideias que geram valor

    Para ilustrar essa reflexão, gostaria de dar dois exemplos que eu mesmo desenvolvi no Garage AI.

    Há alguns meses, criei um aplicativo chamado Burnouts.life, que é basicamente uma série de perguntas sobre saúde integrativa, capaz de calcular a probabilidade de uma pessoa desenvolver burnout a curto prazo.

    Esse app tem uma ideia interessante, chega a ser até divertido, mas não agrega um valor real ao mercado. Não pelo fato de ser falho, mas porque aponta algo que a própria pessoa já desconfia que tem e que por muitas vezes não pretende mudar.

    Em contrapartida, recentemente criei outro app no Garage que simplesmente pega as informações de uma tela e as transforma em uma dashboard. Uma coisa simples, mas que tem gerado valor real para todos no projeto. Entende o que estou querendo dizer?

    Não olhe para a ferramenta tentando criar uma solução inovadora. Olhe para o mercado. Identifique uma necessidade real e use a ferramenta para implementar uma solução. Fazer o contrário só vai te levar mais rápido para o caminho errado.

    Livro Guia do Estoico Contemporaneo
    Livro Guia do Estoico Contemporaneo
  • Seja bem-vindo aos meus ensaios

    Seja bem-vindo aos meus ensaios

    Aqui você encontrará ensaios sobre quase tudo: vida, pessoas, carreira, mercado, governo, filosofia, tecnologia, comportamento e qualquer outro tema que desperte minha curiosidade.

    Não existe uma pauta fixa. Existe apenas o compromisso de observar o mundo, refletir sobre ele e transformar essas reflexões em palavras.

    Os textos publicados aqui representam minha visão de mundo em determinado momento. Algumas ideias permanecerão. Outras mudarão com o tempo. Afinal, pensar é justamente permitir que as próprias convicções sejam constantemente colocadas à prova.

    Não espere consenso. Nem respostas fáceis. Espero apenas oferecer uma perspectiva que faça você enxergar uma questão por um ângulo diferente, concordando ou discordando.